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ARTIGOS
As Razões de Uma Vitória
por Gaudêncio Torquato
Luiz Inácio Lula da Silva ganhou o direito de sentar por mais quatro anos na cadeira presidencial porque teve melhor desempenho nos quatro meses de campanha eleitoral. O presidente conhece bem, como afirma, “a alma do povo”. Fosse em um país anglo-saxão ou profundamente identificado com a ética protestante, Lula não teria sobrevivido às graves denúncias que, ao longo do último ano, corroeram a imagem do governo. Mas a “alma brasileira” é leniente e compreensiva ante a dualidade de conceitos como riqueza e miséria, virtude e crime, honestidade e corrupção, generosidade e horror. Por outro lado, o eleitorado brasileiro prefere o discurso que fala para o bolso do que a peroração para as mentes. Os valores éticos (espirituais), que emergiram do túnel dos mensaleiros e desaguaram nos dutos do dossiêgate, perderam para os valores do bolso (materiais). Economia estabilizada, inflação controlada, real valorizado, poder de compra preservado, beneficiando todos os conjuntos sociais, e o Bolsa-Família expandido, melhorando a situação das classes D e E, foram mais fortes que a pergunta: “de onde veio o dinheiro para comprar o falso dossiê?” Lula teve melhor desempenho no plano do discurso. Disse para o povo o que ele queria ouvir. As falas cheias de metáforas e imagens populares se somaram ao desfile interminável de feitos do governo e entraram com facilidade na cachola das massas. O petista saiu-se igualmente bem no âmbito do turbilhão de denúncias. Martelou a resposta de que, em seu governo, nada é empurrado para debaixo do tapete. Colou. Para fechar o circuito de forças a seu favor, Lula contou com o poder da caneta. Quem exerce o mando no poder executivo federal e nos governos estaduais tem chances maiores de se eleger. O fator organizativo também ajudou Luiz Inácio. Ele fez bons comícios, correu o Brasil, jogou-se para as massas. Pelo lado tucano, os aliados se apartaram em muitos estados. Faltou um plano estratégico; a agenda de rua do candidato foi pobre. O programa de TV foi visivelmente ruim, sem eixos, disperso e monótono, as ações táticas foram limitadas e os recursos escassos. Mas sobrou desorganização. Para arrematar a boa performance, Lula deu, no segundo turno, um nocaute técnico em Alckmin com o terrorismo da “privataria”. Ganhou os eleitores de Heloísa Helena e de Cristovam Buarque, além de avançar sobre fortes contingentes das classes médias, que deixaram o espaço antes reservado ao tucano. Lula ganhou a eleição, mas iniciará um segundo mandato sob o signo da suspeita. É evidente que o tal “terceiro turno”, a desestabilização de Lula pela via da Justiça, não tem condição de prosperar. O voto popular e a ampla maioria conseguida legitimam o candidato e não haveria força moral nos tribunais para derrubá-lo. Luiz Inácio terá à disposição um amplo cordão de apoios, a partir do engajamento de 18 governadores, uma base de cerca de 370 deputados e uma boa bancada no Senado. Na Câmara Alta, apesar do oposicionismo formado pelas alas de senadores do PFL e do PSDB, que poderão, com seu número, formalizar pedidos de CPIs, Lula enfrentará alguma dificuldade, mas nada que possa prejudicar a governabilidade. Procurará formar um governo com menos petistas e ampliará os espaços do PMDB. Focará o governo no alvo desenvolvimentista, como forma de retomar o crescimento e atender às demandas do empresariado. Depois de algum tempo, emergirá a pressão de movimentos sociais, como o MST. Terá fortes dores de cabeça. O movimento desejará tirar o atraso. E passará por cima das querelas internas dentro do PT, partido que será despaulistanizado e mais nordestizinado, a partir da influência de Jaques Wagner e Marcelo Déda, os novos governadores da Bahia e de Sergipe. A reeleição de Lula marca, ainda, a abertura de um ciclo de reformas, a começar pela reforma política. Não há mais condição de o País conviver com a desorganização do quadro partidário. Certamente, o estatuto da fidelidade partidária, ao lado de um intenso debate sobre o sistema de voto, deverá abrir o capítulo reformista, a ganhar continuidade com a discussão das questões tributária e previdenciária. Que Lula deseja reinserir a política itamaratyana nos eixos do primeiro mundo, disso não há dúvida. Porém sem perder de vista seus parceiros tradicionais. Até aqui, dá para se enxergar a paisagem com alguma clareza. Para olhar mais adiante, é preciso saber qual será a moldura internacional, a partir das condições da economia norte-americana. A lupa consegue visualizar, ainda, um presidente mais modesto, menos arrogante e profundamente interessado em limpar os restos de lama que cobrem sua imagem. Por isso, continuará a pedir a punição aos culpados, doa a quem doer, como costuma repetir.
- Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e consultor político.
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