A entrevista coletiva convocada pelo ministro da Fazenda, Antonio Palocci, para um domingo, antes que a semana começasse com desagradáveis surpresas, sobretudo na área econômica, representou uma estratégia rápida e inteligente por parte do governo, segundo a opinião de especialistas. Funcionou como uma ''vacina'' - manobra muito usada no meio político e bem aprendida pelo PT.
- Provavelmente ele foi orientado a fazer o que chamamos de ''vacina''. O PT aprendeu a fazer isso, o que Lula não sabia fazer. Essa entrevista simplesmente jogou o destino dele para as mãos do presidente. Palocci virou um grande alvo - sentenciou o consultor em Marketing político Roberto Dalpiaz Rech.
Para o professor do programa de Pós Graduação em Ciências Políticas da UFRJ, Valter Duarte, se as denúncias contra o ministro da Fazenda forem provadas - o que ele acha difícil de acontecer - não terão efeito agora, pois as acusações se referem ao tempo em que Palocci estava na prefeitura de Ribeirão Preto e não no ministério. Não caracterizaria, portanto, nada que pudesse ser exigido por parte do presidente Lula, como o de afastar o ministro.
- Se ocorreu alguma coisa foi com o Palocci enquanto prefeito e não como ministro. Tudo que está acontecendo até agora é no âmbito do Legislativo. Acho muito difícil que a situação complique a vida do ministro. Só se as denúncias forem provadas, o que poderá pesar no histórico político de Palocci - afirmou Duarte.
Na opinião do cientista político da UFRJ, Aloizio Alves Filho, a denúncia do advogado Rogério Buratti, às vésperas do fim da semana, foi fundamental porque permitiu que o governo apagasse o incêndio sem que as bolsas iniciassem seus trabalhos com um cenário de crise.
- O governo, dessa vez, diferente de outras ocasiões, contra-atacou muito rápido - destacou Alves Filho, que comparou Palocci a um médico falando com um paciente.
- Ele está acostumado a ser explicativo para tranqüilizar os outros. Acredito que a conduta do ministro na entrevista deva-se, em parte, a sua personalidade e à vida política. Se fosse o ex-chefe da Casa Civil, José Dirceu, não teria essa serenidade e não daria uma entrevista técnica, previsível - afirmou o especialista. Para ele, a cúpula do governo não está tomando nenhuma decisão improvisada nessa fase.
- Palocci se colocou como um ministro dedicado, de raiz petista. Ele chamou a atenção para erros na gestão, mas formou consenso de que acertou mais que errou quando citou os números otimistas do seu ministério - ressaltou.
Alves Filho avalia ainda que o governo está amplamente identificado com o ''arquétipo de Tiradentes''.
- Quando o presidente diz que foi traído e ninguém sabe quem traiu, se aproxima, de alguma forma do maior herói brasileiro, que morreu mártir, em um contexto de traição - comparou.
Ministro Palocci vacina a economia
BRASÍLIA - Num esforço para evitar que a crise política contamine a economia, o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, foi rápido ao responder as acusações de que recebeu R$ 50 mil mensais de empresa de lixo em troca de favorecimento em licitação na prefeitura de Ribeirão P reto. Em entrevista coletiva convocada para ontem, o ministro demonstrou segurança ao negar com veemência denúncias contra ele e dizer que permanecerá à frente da pasta, sob as bençãos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Antes de responder às questões dos jornalistas, Palocci fez um breve pronunciamento, no qual foi logo avisando que não deixaria o cargo. O ministro abriu o discurso afirmando que telefonou para o presidente antes da entrevista e, durante a conversa, sua demissão foi descartada, embora ele tenha o deixado à vontade para afastá-lo. Em seguida, rebateu todas as acusações e denúncias que pesam sobre ele.
– Quero negar categoricamente essas acusações porque são falsas. Estou absolutamente tranqüilo porque sei do que fiz. E sei do que não fiz. Antes de vir aqui, telefonei ao Lula e disse a ele que iria dar estas explicações, mas que iria deixá-lo absolutamente tranqüilo sobre a minha posição – afirmou o ministro.
As declarações de Palocci se apoiaram em dois eixos principais, ambos com o nítido propósito de acalmar o mercado: primeiro, o ministro se dispôs a esclarecer todas as acusações já feitas e eventuais fatos novos; segundo, mesmo que deixe o cargo, a política da Fazenda não será mudada, e a economia poderá resistir a turbulências.
Durante as duas horas e meia de entrevista, Palocci se preocupou em reafirmar a “solidez” dos fundamentos econômicos e deixar claro que aposta na manutenção da atual política econômica, independentemente de quem esteja no comando do ministério da Fazenda – “ninguém é insubstituível”, sublinhou várias vezes – e negou ter sido “traído” por Buratti, até porque não existiria, segundo ele, uma relação de confiança estabelecida entre os dois. Semana passada, setores da oposição enviaram recados ao Planalto de que a repetição retórica da traição poderia passar a impressão de inépcia do governo.
– Falei com Buratti pela última vez em 2003. Nem me lembro do teor da conversa – disse Palocci querendo aparentar distância do ex-assessor. O ministro Palocci revelou bom senso e seriedade ao reconhecer a gravidade e a culpa de parcela do PT, depois de lembrar discurso em que o presidente Lula admitiu que o partido deve desculpas à sociedade.
– Acredito que uma parcela do partido tem culpa sim, mas tem de deixar que as investigações sejam feitas. Assim como o presidente reconheceu, ao dizer que achava que o partido também deveria pedir desculpas, acredito nisso – afirmou.
O único momento em que Palocci elevou a voz foi para criticar promotores do Ministério Público do Estado de São Paulo responsáveis pela tomada do depoimento do advogado e o ex-assessor, Rogério Tadeu Buratti.
– Os promotores traduziram as palavras do depoente que foi colocado em situação constrangedora. Não se pode jogar informação sem apuração – reclamou.
A conduta de estadista, o tom pausado e a maneira enfática de se expressar, não deixando perguntas sem respostas, a tentativa de se descolar de Buratti, as críticas ao Ministério Público, bem como o conteúdo de exaltação aos pilares da economia num recado claro ao mercado financeiro, foram estratégias amplamente discutidas nos últimos dias entre Palocci, o presidente Lula e o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, que o instruiu do ponto de vista jurídico. A preocupação no seio governista era de que as denúncias contra Palocci interferissem a economia, até então considerada o ponto forte do governo Lula.
A blindagem ao ministro permanecerá durante a semana para que a situação permaneça sob controle. Lula deve fazer um pronunciamento de apoio ao ministro entre hoje e amanhã, reiterando a permanência de Palocci no cargo e reafirmando que não haverá alterações na política econômica. A nova fala de Lula também servirá para o presidente dar uma resposta mais contundente à crise que envolve o governo.
As linhas do discurso presidencial seriam discutidas em reunião ontem à noite na Granja do Torto entre Lula e o chamado gabinete da crise, composto pelos ministros da Coordenação Política, Jaques Wagner, da Casa Civil, Dilma Roussef, da Secretaria Geral, Luiz Dulci, da Justiça, Thomaz Bastos, o próprio Palocci e o ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes.
Outra preocupação do governo é a retomada da agenda do Congresso. Desde a última semana, o ministro Jaques Wagner tem trabalhado no sentido de colocar na praça uma pauta mínima, num acordo envolvendo governo e oposição. |