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  ROBERTO RECH NA IMPRENSA
   
 

Começa a corrida por 7.835 cadeiras

   
 
Na disputa por um mandato de vereador vale tudo: compra de kit candidato e contratação de lideranças de bairro
   
 

O ano de 2008 é de vestibular para milhares de interessados em ocupar uma cadeira em 853 câmaras municipais em Minas Gerais. E mesmo com tanto espaço em disputa (serão 7.835), a relação candidato-vaga é mais concorrida do que qualquer prova para se entrar em uma universidade ou ganhar um posto previsto em concursos públicos realizados pelo país.

Com tanta concorrência, quem quiser de fato se tornar vereador em 2009 precisa se preparar e tomar cuidado com os mínimos detalhes de uma campanha que vai durar meses e que já começou nos bastidores. Se não há uma receita infalível para garantir uma eleição, existem requisitos e dicas que especialistas e políticos bem sucedidos dão para quem quer se aventurar com chances reais de ser eleito.

Autor de 24 livros sobre eleições, o marqueteiro Luiz Roberto Dalpiaz Rech, da Associação Brasileira dos Consultores Políticos (ABCOP), dá algumas pistas para quem quer ser eleito.

"A melhor dica passa pelo marketing de aproximação, promover o contato físico entre o candidato e o eleitor e com as pessoas em geral. Eleição é contágio, quem consegue mexer com o inconsciente coletivo sai na frente dos adversários", explica o marqueteiro.

Ele ressalta vários pontos (ver arte abaixo) com os quais o candidato precisa se preocupar. E explica a necessidade de cuidar de cada minúcia. Segundo Dalpiaz Rech, o primeiro passo é ter, de fato, vontade de disputar.

"Eu falo vontade de concorrer mesmo. Primeiro para liderar a si mesmo, depois para liderar os outros", explica o marqueteiro político, que destaca também a importância do carisma de quem quer concorrer. "Isso pesa muito e contribui para desarmar o eleitor no primeiro momento. Para um candidato simpático, a chance de ser votado é bem maior", diz.

Dalpiaz Rech ainda frisa, em suas palestras para políticos, a necessidade de que o candidato cuide da aparência. Ele dá um exemplo engraçado para confirmar sua dica. "Costumo dizer que para um sujeito que usa um desodorante vencido, a probabilidade de vencer as eleições é muito pequena", brinca.

Cabo eleitoral

Por conta da lei nº 11.300/07, que alterou as regras estabelecidas na lei nº 9.504/97, as possibilidades de um candidato se eleger ficaram mais restritas nessa eleição do que em outras do nível municipal. Em um contexto em que showmícios, trio elétricos, bandeiras e brindes estão proibidos, ganhou força a figura do tradicional cabo eleitoral. A opinião é do cientista político, Carlos Alberto Furtado e Melo, do Ibmec São Paulo.

"Com a proibição das chamadas parafernálias de campanha, os candidatos terão que penetrar nos currais eleitorais de alguma forma. A maioria vão recorrer aos apoiadores de campanhas, os antigos cabos eleitorais. Será mais fácil para o candidato mandar um cabo eleitoral fazer boca de urna que burlar a legislação com um outdoor", analisa Furtado e Melo.

Além da mobilidade dos cabos eleitorais, para o marqueteiro Dalpiaz Rech, o mais importante mesmo é estar na boca do povo. "Eleição é contágio. Você pode verificar que o candidato que se aproxima das crianças, que entrega pessoalmente material de campanha - isso é um termômetro - tem mais chance de se eleger. Contagiando as crianças, o candidato contagia o ambiente também e isso é muito positivo", assinala o cientista político.

Alto custo

Em um ponto os dois especialista concordam. Dificilmente haverá barateamento das campanhas, como previu o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) quando aprovou a chamada minirreforma eleitoral em resposta às denúncias de caixa dois nas campanhas de 1998 e 2002. "Não vai abaixar o custo porque brinde todo mundo fazia. A compra de votos vai aumentar nessas eleições porque o volume de recursos seguramente será muito maior por conta da pouca divulgação das candidaturas", calcula Dalpiaz Rech.

"Quem investe em campanha por debaixo dos panos vai continuar investindo. A fiscalização será intensa, mas é muito difícil coibir o abuso de gastos", finaliza Furtado e Melo.

Internet vende pacotes para políticos novos e veteranos

Pela Internet, o candidato pode encontrar várias opções para desenvolver uma campanha. Na rede estão disponíveis desde kit candidato até discursos políticos. É só escolher a mercadoria, pagar e esperar pelo produto, que é entregue a domicílio e em poucos dias. Os estojos de campanha apresentam opções para candidatos novatos e veteranos, como pacotes para atuação na política e realização de campanha.

As mercadorias são as mais variadas possíveis, como slogans de campanha, santinhos, cartazes, discursos e até mesmo projetos de lei. Um kit completo de campanha com 13 produtos custa R$ 2.500. Por um discurso, em até cinco laudas, o candidato paga R$ 250. Quanto maior for o pronunciamento, maior é o preço cobrado. Até mesmo as formas de pagamento ficam de acordo com bolso do (candidato). Ele pode depositar odireto em conta ou usar o cartão de crédito.

O cientista político da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Dênis Rosenfield Melo, não vê com bons olhos a proliferação desse tipo de mercado. Segundo ele, trata-se de “banalização” da política. “Os candidatos a vereador recorrem a esses produtos por falta de propostas e pela ausência de vocação. Geralmente são pessoas despreparadas e sem amparo dentro dos partidos. Infelizmente, por causa da forte presença do marketing político, esses candidatos viraram um produto igual o que eles compram na internet”, analisou. (EF)

Mercado é restrito para estreantes

A peça-chave para fazer da campanha um sucesso e conquistar visibilidade na busca de votos é o cabo eleitoral. Para o candidato novato, encontrar os mais famosos ou experientes é mais complicado, ou seja, tem que botar a mão no bolso. Mesmo com uma boa oferta financeira, é difícil conquistar o cabo eleitoral já vinculado a um vereador que tenta a reeleição.

Segundo um cabo eleitoral profissional, “o melhor jeito de chamar a atenção é participar das associações e interagir com a comunidade”. Ele explica que nos conselhos das associações são escolhidos os diretores e é por aí que, nas reuniões, vereadores e cabos eleitorais fazem o primeiro contato. “Então as conversas começam, falamos de apoio e nas campanhas somos procurados”, diz o profissional, que prefere se manter no anonimato.

Recrutar cabos eleitorais nessas eleições será mais difícil, na opinião dele, que é formado em publicidade e ainda é líder comunitário. “Para os novos vereadores é mais complicado. Porque tem que pegar gente com certa experiência e a maioria já está ligada a algum candidato ou já até trabalha em algum gabinete. Por isso as conversas com os líderes comunitários é muito importante. É por eles que se sabe quem é confiável ou não”, alertou.

Ninguém gosta de dar a fórmula

Conquistar uma cadeira no Legislativo não é uma tarefa simples, alertam os especialistas. Na maioria das vezes, a concorrência é tão ou mais acirrada do que passar num concorrido concurso público ou vestibular. Nesse panorama de disputa, políticos de todas as idades precisam traçar estratégias para atrair o eleitorado. Cada um tem a sua, mas ninguém revela claramente como fazem para conquistar adeptos em época de campanha. Eles preferem tratar apenas genericamente de suas armas eleitorais e se concentram em discursos de autopromoção.

O vereador mais velho de Minas, Antônio Pinheiro (PSDB), 84 anos, que exerce o mandato, diz apostar em seu passado. Já o mais jovem do Estado, Joaquim Bernadino Neto (PSDB), 25 anos, afirma representar a cidade de Centralina com o apoio de um clube de motoqueiros da cidade.

Apesar de adotarem estratégias eleitorais diferentes, os dois vereadores mantêm muita proximidade com o eleitorado.
 
Fonte: Jornal O Tempo – Belo Horizonte

Ezequiel Fagundes